Xapono – relato de viagem e oficina

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PARTE I – Viagem

Saímos de São Paulo no dia 5 de maio. Nosso destino era o sítio Poraquequara, no Município de Santa Isabel do Rio Negro, onde só chegaríamos depois de quatro dias de viagem. Naquele dia cinco, nossos vôos saíram de Guarulhos, com destino a Manaus, aonde nos hospedamos por uma noite, para esperar a saída do nosso barco. Nesse meio tempo, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco a cidade.

Por sorte, Anne Soares, que junto com os Yanomami, nos convidara para realizar as oficinas de vídeo, tivera a saída de seu barco adiada e pôde nos receber em Manaus, e muito bem, por sinal. Nos encontramos à noite e no dia seguinte ela nos levou para comprar alguns apetrechos para a oficina que ainda nos faltavam, e almoçar um delicioso pacu no mercado moderno – espécie de feira livre bem popular. Depois do almoço, paramos numa barraquinha para comer açaí com farinha, como fazem as pessoas lá no Norte do país.

Aquele açaí congelado e doce que muito se aprecia em São Paulo é coisa mesmo para exportação e não é, definitivamente, a maneira tradicional de se consumir esse fruto. Em Manaus, o açaí se toma líquido, à temperatura ambiente, sem açúcar, frutas ou granola e acompanhado apenas de uma farinha de mandioca de grãos grandes e bastante duros para paulistanos como nós. Com o tempo, fomos aprendendo a apreciar, tanto o açaí fresco e natural, quanto essa farinha, que os Yanomami chamam “naxi” e que deixa a comida local sempre crocante.

Depois do almoço, pegamos o barco rumo a Santa Isabel do Rio Negro. Era uma embarcação de três andares, mas bastante simples. Nos dois andares de baixo, os passageiros amarraram suas redes acomodando-se para uma viagem de alguns dias, Rio Negro acima. Optamos por trocar nossas passagens por um lugar em uma das cabines, para garantir a segurança dos equipamentos comprados com dinheiro arrecadado numa campanha de financiamento coletivo, que já haviam custado muito esforço e a contribuição de mais de 230 pessoas. Resolvemos não correr o risco de não cumprirmos com nossa responsabilidade de fazer chegar esses equipamentos às mãos dos Yanomami e frustrar as expectativas deles e de tantas outras pessoas. A caminho de Santa Isabel, fizemos uma parada no porto de Barcelos para a subida e descida de passageiros. Depois do nosso destino, o barco ainda continuaria sua viagem até São Gabriel da Cachoeira, local que não tivemos a oportunidade de conhecer. Navegamos por três dias e duas noites, presenciando os espetáculos que o céu nos oferecia e a imensidão da floresta espelhada nas águas tranquilas do Rio Negro.

Desembarcamos em Santa Isabel do Rio Negro e Virginel, um integrante do Xapono (aldeia Yanomami) Bicho-Açú, já nos esperava com uma “rabeta”. Assim são chamadas as pequenas lanchas, com uma longa haste ligada à hélice do motor, muito comuns na região.  Subimos um pouco mais o Rio Negro e entramos pelo Rio Marauiá, que delimita do seu lado esquerdo o Parque Nacional do Pico da Neblina e do seu lado direito, mais acima do Sítio Poraquequara, a Terra Indígena Yanomami. Avistamos uma pequena guarita com aparência de abandono. Nos foi explicado que antigamente era ali o posto de um funcionário da FUNAI, que fiscalizava a área. Há algum tempo, devido a cortes de verbas, o cargo para esse posto havia sido extinto.

Ao longo do Marauiá estão situados cerca de treze Xaponos, alguns muito distantes do local aonde nos encontrávamos.  O Sítio Poraquequara, onde nos hospedamos e onde se desenrolaram as oficinas de vídeo, localiza-se na margem direita do rio, pouco antes do início da Terra Indígena. Trata-se da residência de Anne Soares e local onde ela realiza atividades de formação da Associação Rios Profundos, em geral junto à Associação Kurikama, formada por representantes de todos os Xaponos do Rio Marauiá. Lá chegamos dentro de pouco menos de três horas.

As águas dos imensos rios pelos quais navegamos pareciam nos convidar para um delicioso banho de rio, coisa que pretendíamos fazer assim que chegássemos ao nosso destino.  Tamanha foi nossa frustração quando soubemos que isso não seria possível: segundo Anne e os próprios Yanomami, no inverno, época de cheia, o volume de água sobre as árvores e pedras submersas provoca correntezas e redemoinhos e esconde perigos como jacarés, piranhas e cobras. Nos foi recomendado que nos banhássemos apenas na beirada. Sem entender direito se estavam brincando, exagerando ou falando sério, seguimos as orientações, até porque não havíamos visto pessoas nadando longe das margens desde o começo da viagem.

No dia seguinte à nossa chegada, Anne iniciou sua comunicação pelo rádio, ao qual se referia como “fonia”, convocando todos os yanomami escalados para o curso de audiovisual e pedindo que representantes da Associação Kurikama acompanhassem a entrega dos equipamentos para o Núcleo Audiovisual Xapono. Durante todo o mês que estivemos lá esse era o único meio de comunicação disponível. Era bem interessante acompanhar as conversas. Moradores de Santa Isabel, indígenas de diferentes xaponos, agentes de saúde e professores comunicavam-se, ora em português, ora em xamatari, a língua falada pelo povo Yanomami.

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Romeu, Ribamar e Marielza, nossos primeiros companheiros de curso, chegaram no terceiro dia e já no dia seguinte demos início às oficinas de vídeo. Nos dias que se seguiram foram chegando, aos poucos, Silvano, Tomas, Fábio e Ricardo, vindos de diferentes xaponos. Chegaram conversando na sua língua. Falavam e riam muito. Nós, que não entendíamos nada, ficávamos sem saber se estavam rindo de nós ou de outra coisa qualquer. Eles nos pareciam brincalhões e muito tranqüilos.

Passaríamos quase vinte dias, todos juntos, dormindo, convivendo, nos conhecendo e trabalhando muito no Sítio Poraquequara. A única saída que faríamos, depois de mais ou menos dua semanas de curso de vídeo e ainda assim com apenas uma parte dos integrantes do grupo, seria um exercício prático de filmagem no Xapono Bicho-Açú.

PARTE II – Oficinas de vídeo

Durante a primeira semana, realizamos um trabalho bastante prático, de apresentação dos equipamentos e do funcionamento básico de cada um. Começamos com a filmagem no modo automático e noções básicas de captação de som. Paralelamente a isso, apresentamos o funcionamento do computador  e os ensinamos a criar e nomear pastas nos HDs externos, para organizar o material que iam filmando durante o curso. Por incrível que pareça esse foi um dos processos mais difíceis e demorados de toda a formação.

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Nos primeiros dias de oficinas, notamos que havia uma dificuldade de comunicação entre nós, que não falávamos uma palavra em xamatari, e nossos amigos yanomami, que não conseguiam acompanhar muito bem nossa fala em português. Era difícil saber com certeza o que eles compreendiam ou não e, durante uma aula sobre entradas e canais de áudio, começamos a perceber que eles entendiam muito menos o que estávamos falando do que imaginávamos.

Demos um passo atrás, diminuímos o ritmo e começamos a trabalhar com mais ajuda de Anne, fluente na língua deles. Ela se tornou nossa tradutora e intérprete. Participava das aulas, ajudando nas explicações.

Por uma demanda dos participantes, começamos a anotar alguns passo-a-passos na lousa e Anne, junto com o grupo, fazia a tradução para o xamatari, criando nomes para os equipamentos, programas de computador, comandos e outros termos que não existem na língua yanomami. Cada aluno, então, copiava essas aulas em um caderno. Fizemos também uma versão digitalizada, criando uma espécie de cartilha de vídeo em xamatari.

Partimos, então, para questões mais complexas de uso dos equipamentos, como os ajustes de gravação no modo manual (foco e assistente de foco, íris, zebra, temperatura da imagem e cenas), os diferentes modos de configuração do microfone interno da câmera, formatação de HDs e pen drives.

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Em meio a tudo isso, quebramos a cabeça para pensar numa logística que nos permitisse ensinar também o processo de edição de vídeo em tão pouco tempo. Inicialmente, pensávamos em ensinar tudo a todos, mas logo vimos que isso não seria possível. Levamos para o grupo a proposta de escolhermos duas pessoas que se dedicariam a isso e ficariam responsáveis por transmitir o conhecimento aos outros depois. A proposta era delicada, pois poderia ferir o espírito de coletividade que se construíra até então, podendo ser entendida como a criação de certos privilégios, mas não conseguimos ver outra saída. Propusemos que tomassem um tempo para discutirem a proposta entre eles à vontade. O grupo aceitou a proposta, mas decidiu indicar três pessoas, e não duas como havíamos proposto. Flávio propôs de ensinar as questões de câmera para os escolhidos à noite, depois do jantar, e por fim, ficou definido que nosso curso passaria a acontecer pelas manhã, tardes e noites para todos.

Realmente, passamos a trabalhar muito mais, mas logo ficou claro também que mesmo nos dividindo dessa maneira, com o tempo que tínhamos, seria impossível ensinar edição. Esbarramos em muitas dificuldades para a compreensão dos processos envolvidos em criar novos projetos de edição no Final Cut e sentimos que seria mais importante aprofundar e fixar os conhecimentos trabalhados até então, do que dar continuidade às aulas de edição. Era preciso que, além de serem capazes de filmar/registrar, eles desenvolvessem autonomia para guardar e organizar o material filmado, sem correr o risco de perder futuras filmagens importantes. Decidimos parar com as oficinas de edição e ficou combinado que voltaríamos em dezembro para retomá-las.

 

 

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